domingo, 10 de novembro de 2013

Epístola número 5

Querido Tratador.

Espero que esta missiva o encontre no mais que perfeito gozo de seus imensos poderes.
Não tomo da pena para lhe informar sobre alguma coisa pois não julgo isso necessário mas para lhe fazer uma rogação; rogação esta, que se eu pensar mais uma vez sobre ela, verei que também carece da necessidade de ser expressa; mas confiante em sua benevolência cometo esta redundância.
Foi em meados do século XX que nos conhecemos e eu ainda me lembro, claro que muito vagamente.
Eu era muito novo neste mundo e estava descobrindo que bastava um simples gemido meu para que sua generosa mão me afagasse e sua vontade providenciasse o que era necessário para mim naquele momento, eu não sentia nem fome nem frio naquele tempo sem ser saciado e aquecido de alguma maneira.
Mas o tempo passou e enquanto passava sua onipresença sempre deu segurança para os meus, ainda inseguros, passos em direção ao futuro.
Eu me recordo, que o via chegar do nada e afagar os meus ralos cabelos, falar comigo mesmo sabendo que eu nada entendia do que dizia; sua voz me fazia feliz, tão feliz quanto me fazia o meu pratinho de mingau de fubá, às vezes feito com água porque nem sempre tínhamos o leite necessário ao acepipe.
É, eu sei que graças ao senhor, querido Tratador, nunca nos faltou o que comer ou beber, nem mesmo um abrigo para nos proteger das intempéries e dos perigos.
Eu sei também que sob seus cuidados sempre fomos livres para tudo e em nossa casa (toca) sempre tivemos o suficiente para ser partilhado com todos os que por lá chegavam com fome sede ou cansaço.
Nossa água matava a sede dos que estavam sedentos e nossa comida a fome dos que por lá chegavam em busca de um abrigo para descansar os pés antes de seguir o seu destino.
Meus amiguinhos vinham brincar comigo e eu partilhava os brinquedos que me davas, todos por sinal de sua própria lavra e na pracinha de areia nos divertíamos muito mudando “montanhas” de lugar com nossos carrinhos e quando algum deles quebrava, la vinha o senhor, querido Tratador, nos ensinando a consertá-lo.
Faz algum tempo que isso se tornou passado.
Eu me lembro que a este tempo tinha liberdade para ir a qualquer lugar e a qualquer hora; ir, se pudesse, até aqueles pontinhos brilhantes no céu noturno que eu podia ver da entrada da minha toca (lar).
Mas hoje, querido Tratador, minha casinha (toca) tem barras de aço em volta, ouvi alguém dizendo lá fora, que era uma gaiola, eu não entendi o porque da mudança mas agora, hoje, ninguém vem mais à minha nova toca (casa) e eu não posso mais ir a qualquer lugar nem a qualquer hora, eu não consigo passar pelas barras e assim ir aos pontinhos que brilham de noite, aliás, já não os posso ver mais da entrada da do meu lar, mesmo porque já nem sei mais se vivo uma casa ou em uma gaiola, seja lá isso o que for.
Hoje, querido Tratador, eu falo com amigos distantes a qualquer momento, posso vê-los e quase os toco, no entanto os que estão próximos quase nunca estão tão próximos para serem tocados ou para que eu possa ouvir o real timbre de suas vozes ou ainda, para que possam eles ouvirem, ao vivo e a cores, o que lhes digo, sem a intermediação de uma parafernália de tímpanos mecânicos e janelas coloridas de vido ou LEDs.
O tempo que eu podia ouvir a sua voz com clareza, meu querido Tratador, perdeu-se no passado e eu nem mesmo sei para onde, nem como ele se foi.
Perdeu-se no tempo e no espaço.
Sua voz tomou muitos timbres e nenhum deles é o vosso, aquele que outrora foi meu conhecido e o que falas por elas é uma sucessiva reiteração, de sentenças pinçada aqui e acolá, tendo em vista o momento a serem inseridas e não mais no contesto em que estas foram escritas, com a finalidade para que foram escritas.
A mesma voz que fala, quase nunca, pratica o que diz.
Por outro lado a sua face, a sua face tão bem por mim conhecida e indefinível, está deformada, estilizada e quase sempre esconde subliminaridades inconfessáveis até no canto mais recôndito do inferno de Dante e ela hoje rotula, em letras e(ou) imagem, tudo o que pode ser vendido ou comprado por algo ou alguém, em algum lugar, seja ele onde for.
Eu não consigo entender isso.
Não posso vê-lo mais em meio à estas oito bilhões de faces; não posso ouvi-lo mais em meio às falas, aos berros, aos urros, aos gemidos e aos desvairos desta alucinante e quase infinita homiliada que rodeia-me em roscas e volteios, serpenteando ameaçadora ao redor desta minha nova morada.
Maravilhoso mundo novo este em que vivo.
Tão cheio de espíritos e tão vazio de almas, repleto de coisas e sem nada de realmente útil ao crescimento humano, pleno de belezas a oferecer sem ter nada de belo para dar, cheio de amor e sem amor para doar; caro, muito caro para se viver e barato, barato demais para se morrer; um mundo onde a ignorância é a sabedoria, sabedoria que vampiriza o poder e esta, a sabedoria real e verdadeira, moralizante e construtiva, hoje é apenas o rebotalho, nada mais que a escória repulsiva de uma sociedade decadente.
Se tanto escrevi, foi para dar uma ênfase maior à minha rogação.
Bem sei que a minha atual casinha é pequena demais e não comporta a sua grandeza física e moral, mas antigamente ela era ainda menor e cabias ali confortavelmente, ainda sobrava espaço para todas as brincadeiras, por isso rogo-lhe que faça de novo, outra vez, este milagre.

São Paulo, SP, 09/10 de Novembro de 2013
Mkmouse


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