sábado, 25 de janeiro de 2014

O Bestificado I, contemporâneo e pós-moderno.


I
O Inferno

       Eis que não tenho como começar senão sendo dantesco.
       (Pego uma banana com a intenção de descascá-la)
       Mas em não sendo eu um aedo; este Rato, que nem mesmo de longe é um bardo sem Virgílio; que se uma toga florentina para habitar houvesse tido neste ínterim, encharcada estaria ela da gola à fímbria, pelo caudal amazônico de baba que está a jorrar-me em pororocas, pelo queixo que caído está ante a bestificação máxima que me assola ao ver e se só isso fosse, os homens que me rodeiam, suas falas e posturas pós-modernas.
    (O pedúnculo da banana quebra, eu teimosamente belisco a casca agarrando-a e a rasgo puxando-a para baixo até a origem da sua flor.)
Dante e Virgílio diante da entrada do Inferno. Ilustração de Helder da Rocha.
Tradução do Texto da foto
“Por mim se vai à cidade da dor.
Por mim se vai ao tormento eterno.
Por mim se vai às raças malditas.
A justiça moveu o meu sublime Criador. (isaias: 54,16)
Sou obra do poder supremo,
Da suma sabedoria do primeiro amor.
Antes de mim nada existia senão as coisas eternas
E eu duro eternamente.
Ai de vós que por aqui passais.
Perdei toda a esperança.”
Tradução mkmouse - 24-01-2014

      É como me sinto, sem esperanças e nem mesmo cruzei o umbral da maldição, só ao ver a quase infinita fila de homens vivos e mortos que saltitantes e alegremente caminham lado a lado para a danação máxima como se estivessem ad aeternum, em um nababesco e luxuriante gozo mais que celestial.
       (belisco novamente um outro lado da casca e a rasgo até se igualar à anterior, a polpa me parece apetitosa)
       Maravilhoso mundo novo este, onde homens chegam aos píncaros da glória não mais pelo mérito adquirido através do conhecimento no tempo e da prática, no cumprimento das regras e das leis mas sim, pelo apadrinhamento espúrio, ignóbil, mercantil e voluptuoso, fundamentado na ignorância a qual por sua vez se alicerça solidamente sobre a fome e a miséria de muitos para o benefício de uns poucos.
       (Desce a terceira parte da casca até o ponto de origem da flor e a quarta parte nem mesmo lá chega, contemplo salivando a polpa macia.)
       E pensar que ontem o papa, la no centro do império romamo, disse em alto e em bom tom para quem quisesse ouvir e escrever que a internet era uma criação divina.
       É...
       E quem sou eu, além de um simples sobrevivente, para contestar qualquer representante de Deus na Terra mas convenhamos, a internet está mais para uma mistura do fogo de Prometeu com a caixa de Pandora do que para uma dádiva celestial.
       Olha, se a internet definitivamente não for a mais bem sucedida e artística obra de Belzebu, o preferido de Lúcifer é sem duvida um presente de Grego para quem quer que seja o destinatário, um presente dos Deuses para os malvistos Titãs ou, pior ainda, um presente de Deus sabe quem para os homens do seu secto cá na Terra.
       Claro está, para este parvo Rato, que os verdadeiros homens de bem, continuarão sendo homens de bem mesmo que estejam nas maiores profundezas do Hades, pois seguramente este não os afetará em sua integridade moral, em seu caráter, em sua perseverança e na sua fé. (isaias: 54,17)
Ilustração medieval do inferno no Hortus deliciarum, manuscrito de Herrad de Landsberg (cerca de 1180).
       (Dou a minha primeira mordida na carnuda polpa deste fruto da bananeira, cujas origens e trato me é desconhecido, mastigo-a lentamente, está doce, é saborosa.)
       ?
       Ah?!
       É você...
       Você; aquele que agora me empresta os olhos mas não os ouvidos.
       Ficai feliz com isso, como eu estou, pois se chegastes até aqui, tenhais certeza que fazeis parte de uma minoria neste mundo, pois não escrevo para ser lido mas porque gosto, porque me faz bem, posto que em caso contrário estaria eu a defecar frases desconexas no Twitter, nos Mensengers da vida ou quiça tentando ser ridículo no Facebook e não aqui neste blog, como e também, no meu site.
       Agora que sabeis ser uma minoria, já podeis requisitar os direitos que tal situação social lhe garante por estas terras, o direito de ter direitos aos montes e nenhuma obrigação como contrapartida.
       Forme uma ONG para poder entender psicologicamente o porque que aberrações como eu ainda existem, o governo subsidia ONGs ou, solicite algum ajutório governamental por ser uma minoria étnica, aquela minoria que lê os textos do Rato; vai firme que dá certo; junte-se aos outros que além de você também são aptos para qualquer leitura, pois usam jornais para ler, saber o que rola pelo mundo e não para limpar os ânus.
       Tem o,,,, tem a.., tem mais é..., ah! É o, o...., tem...?
       ...Quer saber...
       Deixa pra lá.
       Seja livre.
       Pense por si mesmo(a), isso é tudo o que o status quo não quer que aconteça.
       (Enquanto falava com você, degustei o restante de minha fruta tropical mesmo sem nada saber nada do seu passado; esqueci-me até de perguntar para a bananeira mãe, uma ilustre desconhecida minha e nossa, o tempo de validade do seu produto; mas agora já foi, vou ter que esperar pelo trato intestinal para saber o que é que eu realmente comi desta vez.)
       Na infindável fila que contemplo do alto morro do meu tempo, saltitante e alegremente, vejo trilhando o caminho das raças malditas os escritores de temas contratados ou formadores de opinião, os modistas e os marqueteiros, os veneráveis representantes de Deus na Terra e seus sectários mas, como era de se esperar não são o maior número quando aparelhados aos comerciantes os mais diversos e é claro, a esmagadora maioria, os políticos e o seu secto infinito de bajuladores, secretários, partidários, puxa-sacos e distribuidores de santinhos eleitoreiros.
Satanás no Nono Círculo do Inferno, por Gustave Doré. Criado entre 1861 e 1868.

      Nos círculos infernais existe um lugar próprio para os hoje reconhecidos como da raça dos TI, onde se encontram os programadores de todos os tipos, técnicos em informática indiscriminadamente e todos os donos de programas e Sistemas voltados apenas a tomada de recursos e ao ludibrio de tolos usuários por todo o universo.
       Satanás não contente com a ameaça à sua posição no domínio do Inferno, oriunda da arrogância infinita e quase divina de que esta raça é portadora e ciente que nem todos os tormentos do inferno, juntos, seriam suficientes para fazê los desistir de querer ocupar o lugar que lhe é próprio e único por específica maldição divina, dedicou-lhes um micho exclusivo sob a sua estreita, constante e direta vigilância, onde novos e indescritíveis tormentos são recarregados com uma frequência incerta e ignorada, na forma de atualizações do mais novo sistema operacional de danação do inferno.
       Deveras, não é este Rato um inteirado no uso da palavra escrita, mas com certeza sei descrever o que vejo ou sinto e nesta imensurável fila estão ainda os piores de todas as raças humanas, aqueles que conhecedores da verdade calaram-se para poder usufruir de benesses as mais obscuras, condenando com isso à incondicional vulnerabilidade defensiva um incontável número de pessoas más e boas; se as primeiras, na infindável fila que vejo, marchavam para unir-se às raças malditas, estas marcham para a mais completa das maldições, irão perder tudo, até a individualidade, nem mesmo a lápide do esquecimento terão por epíteto.
       Claro está que este Rato não está nesta fila, nem pretende estar por lá em tempo algum sob qualquer pretexto mas, se por ventura, por lá tenha eu que aparecer em algum momento no contexto da eternidade, que seja ao fim da fila; que aqueles que estão na minha frente não consigam prosseguir e que depois de mim não haja mais ninguém pelo que restar do tempo da minha permanencia por ali.

Fontes:-

São Paulo, SP, 24 de Janeiro de 2014
Mkmouse

domingo, 12 de janeiro de 2014

Afinal de contas, para onde estamos indo?


     Algumas coisas que acontecem pelo mundo às vezes me incomodam, ou melhor, chamam muito a minha atenção.
     Eu sempre acreditei e ainda acredito que a verdade não precisa ser imposta, simplesmente porque é a verdade, uma realidade absoluta e única, um fato consumado via de regra imutável e por fim, se assim não o fosse, como poderia existir no mundo real em que vivemos.
     O ditado, 'Onde há fumaça, há fogo' eu posso melhorar para “Onde há fumaça, houve fogo, há fogo ou haverá algum tipo de combustão em algum momento no tempo”.
     Eu fiz várias postagens onde direta e indiretamente envolve este tema; a manipulação da verdade que chega até a nós:
     Em novembro de 2011:
           E Deus fez a segunda escolha.
           E Deus fez a Luz...
           O Relativismo da Nossa Verdade e do Nosso Tempo.
      Em setembro de 2009:
           Os Relativismos da Verdade Única.
      Em abril de 2009:
           Uma Apologia à Hipocrisia Internacional
     Em resumo, se existe uma verdade (fumaça) algo realmente aconteceu, acontece, ou está para acontecer.
     Aquilo que será historicamente relatado deste evento (fumaça) como a verdade dos fatos, será escrito de conformidade com os interesses dos vencedores e pelos vencedores, apenas e tão somente.
     Nenhuma outra visão do acontecimento será admitida nesta verdade histórica senão esta.
     O relativismo da verdade está aí, ela é a visão monocular de um o evento que por ser pessoal tende naturalmente a distorcer a realidade do evento, na sua forma temporal, na sua forma local e na maneira como afeta o meio onde ocorre; transforma o evento em um relato ficcional, uma realidade fictícia, realidade esta que só trás benefícios aos interessados em mantê-la e que não esclarece coisa nenhuma além de nada trazer de benefícios para a humanidade como um todo.

     Tenho por princípio básico em minhas linhas de raciocínio que toda a verdade que precisa ser imposta (para um ou para todos) por qualquer que seja o meio imaginado, tem algo de errado em algum lugar; em algum ponto esta verdade é uma mentira, para não dizer uma fabulosa fábula.
     A verdade é sempre um único evento, o seu relativismo está na forma como é relatada e por quem foi relatada; ela, assim continuará a ser até o dia que houver uma forma coletiva de se descrever um evento qualquer, por exemplo:

          Todos para um ou todos para todos e não na forma como a conhecemos agora e hoje, de Um para um ou um para todos.
      Esta semana, na França, houve uma resolução da suprema corte francesa cancelando o show de um humorista patrício, fundamentada na lei que rola pela Europa, a qual considera um crime qualquer negativa ou especulação sobre a verdade do Holocausto judeu na mesma Europa, sob a acusação de incentivar, fazer apologia o racismo.
     Vejam só a incoerência gritante disto Tudo.
     Não foi a França que guilhotinou um incontável número de pessoas no arrasto da Révolution Française, (1789-1799) para justificar o lema Liberté, Egalité, Fraternité.
      E não é que esta mesma frança, aquela da Révolution Française, hoje não só aceita como considera certo e justo a aplicação uma imposição legal de validade sobre um acontecimento (relato) histórico, ocorrido em território francês, colocando obstáculos legais a qualquer discussão sobre o referido tema, restringindo com isso a liberdade de expressão e pesquisa de seu próprio povo, este mesmo povo francês, cujas origens Vitor Hugo tão bem descreve!
Devise républicaine " Liberté, égalité, fraternité ", proposée par Robespierre à la Convention nationale le 5 décembre 1790 et placée par J. N. Pache sur les murs des édifices publics parisiens.
Hector Fleischmann, La guillotine en 1793, Paris: Librairie des Publications Modernes, 1908
     Aí tem coisa, a lá isso tem mesmo.
     Se esta moda europeia pegar no resto do mundo (aquele lance do “antecedente legal”), preparem-se para encarar os maiores absurdos físicos, políticos e legais nos anos vindouros.
     Se povos tidos e havidos como livres e democráticos, sujeitam-se a esta absurda e obscura imposição, a este barbarismo medieval, a este feudalismo comercial do intelecto e dos direitos humanos, como gado vacum indo para um matadouro, o que será do resto do mundo que este primeiro mundo nem mesmo sabe que existe.
Óleo sobre madeira - 71 × 56 cm - Museu Carnavalet - Rue de Sévigné, Paris, France
     Pensando bem eu acho que todo o gado vacum do planeta devia pedir cidadania Indu e para a Índia se mudar imediata e permanentemente.
     La vaca é sagrada.
     E como se diz por aqui, no planalto de Piratininga, “No Ceará não tem disso não”.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Feliz ano de 2014

       È findo o ano de 2013 e consequentemente chega 2014.

     O ano de 2014 vem chegando trazendo em seu rastro, ora muito curto, todo o futuro do universo da criação.

     Que este futuro lhe seja leve, rico, alegre e gentil na medida máxima de suas possibilidades.

Desejamos a todos um Feliz Ano Novo

    E como presente de ano novo assistam o vídeo que segue a sinopse abaixo.

     YanniLive at the Acropolis é um álbum e um vídeo de Yanni, lançado em 1994.
     O disco foi gravado ao vivo no Herodes Atticus Theatre em Atenas, Grécia no dia 25 de setembro de 1993.

Músicos
     Todas as faixas foram compostas e produzidas por Yanni, exceto "Aria", que é baseada em The Flower Duet, da ópera Lakmé de Léo Delibes, popularizada por vários comerciais da British Airways
     Orquestra:- Royal Philharmonic Orchestra
      Maestro:- Shardad Rohani 

Banda

     CharlieAdams — bateria
     KarenBriggs — violino
     Michael"Kalani" Bruno — percussão
     RicFierabracci — Baixo elétrico
     JulieHomi — teclados
     BradleyJoseph — teclados
     Duetode violino em "Within Attraction" — Karen Briggs e Shardad Rohani
     Vocalistas em "Aria" — Darlene Koldenhoven e Lynn Davi

Trecho do dvd selecionado por mim (abertura)
Santorini – 7 minutos e 26 segundos – mp4 com 104MB




São Paulo, SP, 30 de Dezembro de 2013
Mkmouse



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Natal de 2013


Natal de 2013

       “A Terra é redonda, não tem cantos, mas mesmo assim os homens, mas não todos, conseguiram criar cantos para se esconder da verdade e da sabedoria.
      Os homens deste planeta falam muitas línguas diferentes e pensam de maneiras diferentes.
        Eles ou elas, são brancos, são negros, são orientais, são ocidentais, são baixos, são altos, são jovens e não tão jovens assim.
        Tem cabelos loiros, cabelos ruivos, cabelos negros, são carecas e (quem diria) quem tenha cabelos brancos.
     São rostos anônimos, conhecidos, de todos os tipos, formas e cores, com rugas e sem rugas.
      Estes homens e estas mulheres, se separados estão condenados à extinção, mas uma vez juntos são capazes de tudo, são capazes falar a mesma língua, capazes de pensar com coerência e são capazes até mesmo de cantar o mesmo tema divinamente.”

          Tenham todos um Feliz Natal e que haja paz na Terra para os Homens de boa vontade!


       Abaixo segue o vídeo legendado em português – Hallelujah, Christmas – Mormon Tabernacle Choir and Orchestra at Temple Square, Mack Wilberg - Conductor. (71Mb - 4m 11s)

São Paulo, SP, 15 de Dezembro de 2013
Mkmouse

sábado, 30 de novembro de 2013

Meu Deus, o que eu ando comendo???


   Quer saber?!

    Este Rato não sabe mais o que está comendo neste mundo de meu Deus.

    Na minha maneira de ver o caso se resume no seguinte.

       1 – A Natureza tem a idade do Universo e seguramente ainda faz coisas que não dão certo, note-se que ela mesma, naturalmente extingue, o que faz de inadaptável ao meio da criação universal.

       2 – O homem toma não só a Criação como a Natureza das coisas e a muda geneticamente depois, graças a sua imensa antiguidade, experiência e sabedoria tem a petulância de dizer que fez certo e melhor, dizer que agora sim vai funcionar certo e ainda quer que eu acredite nisso.
       Não dá para acreditar de jeito e maneira nenhuma.

    Se o Homem não é honesto e justo nem consigo mesmo, como (pelas barbas do profeta) conseguirá ser honesto e justo com os seus semelhantes, em especial com alguns, aqueles, os menos afortunados por não estar ou fazer parte de seu secto mais pessoal, dos seus interesses mais imediatos?

    Não dá para acreditar não.

    Observe o seguinte:

    Todas as pessoas que lidam com computadores e que tenham um cérebro (quantitativa ou qualitativamente) um puco acima do cérebro de uma ameba zumbi sabe que tudo o que é executado por um computador pode ser manipulado por alguém, de alguma maneira em algum lugar ou momento.

    E ainda ha quem acredita na honestidade de urnas eleitorais, na imparcialidade (sorte) nos jogos da caixa econômica federal, em resultados de pesquisas, em outros absurdos e modismos mais.

    Não dá não, mas há uma realidade que precisa ser levada em consideração em tudo isso, os problemas que possam ser gerados pelos transgênicos são menos rápidos que os problemas gerados pelas nossas honestas urnas eleitorais.

    A política certamente me mataria mais rápido que a soja transgênica ou qualquer outro veneno geneticamente criado pelo homem e a sua poderosa ciência, para a correção de algo que a estúpida Mãe Natureza fez de inadequado ao trato e (ou) aos interesses humanos.

São Paulo, SP, 30 de Novembro de 2013

Mkmouse


domingo, 10 de novembro de 2013

Epístola número 5

Querido Tratador.

Espero que esta missiva o encontre no mais que perfeito gozo de seus imensos poderes.
Não tomo da pena para lhe informar sobre alguma coisa pois não julgo isso necessário mas para lhe fazer uma rogação; rogação esta, que se eu pensar mais uma vez sobre ela, verei que também carece da necessidade de ser expressa; mas confiante em sua benevolência cometo esta redundância.
Foi em meados do século XX que nos conhecemos e eu ainda me lembro, claro que muito vagamente.
Eu era muito novo neste mundo e estava descobrindo que bastava um simples gemido meu para que sua generosa mão me afagasse e sua vontade providenciasse o que era necessário para mim naquele momento, eu não sentia nem fome nem frio naquele tempo sem ser saciado e aquecido de alguma maneira.
Mas o tempo passou e enquanto passava sua onipresença sempre deu segurança para os meus, ainda inseguros, passos em direção ao futuro.
Eu me recordo, que o via chegar do nada e afagar os meus ralos cabelos, falar comigo mesmo sabendo que eu nada entendia do que dizia; sua voz me fazia feliz, tão feliz quanto me fazia o meu pratinho de mingau de fubá, às vezes feito com água porque nem sempre tínhamos o leite necessário ao acepipe.
É, eu sei que graças ao senhor, querido Tratador, nunca nos faltou o que comer ou beber, nem mesmo um abrigo para nos proteger das intempéries e dos perigos.
Eu sei também que sob seus cuidados sempre fomos livres para tudo e em nossa casa (toca) sempre tivemos o suficiente para ser partilhado com todos os que por lá chegavam com fome sede ou cansaço.
Nossa água matava a sede dos que estavam sedentos e nossa comida a fome dos que por lá chegavam em busca de um abrigo para descansar os pés antes de seguir o seu destino.
Meus amiguinhos vinham brincar comigo e eu partilhava os brinquedos que me davas, todos por sinal de sua própria lavra e na pracinha de areia nos divertíamos muito mudando “montanhas” de lugar com nossos carrinhos e quando algum deles quebrava, la vinha o senhor, querido Tratador, nos ensinando a consertá-lo.
Faz algum tempo que isso se tornou passado.
Eu me lembro que a este tempo tinha liberdade para ir a qualquer lugar e a qualquer hora; ir, se pudesse, até aqueles pontinhos brilhantes no céu noturno que eu podia ver da entrada da minha toca (lar).
Mas hoje, querido Tratador, minha casinha (toca) tem barras de aço em volta, ouvi alguém dizendo lá fora, que era uma gaiola, eu não entendi o porque da mudança mas agora, hoje, ninguém vem mais à minha nova toca (casa) e eu não posso mais ir a qualquer lugar nem a qualquer hora, eu não consigo passar pelas barras e assim ir aos pontinhos que brilham de noite, aliás, já não os posso ver mais da entrada da do meu lar, mesmo porque já nem sei mais se vivo uma casa ou em uma gaiola, seja lá isso o que for.
Hoje, querido Tratador, eu falo com amigos distantes a qualquer momento, posso vê-los e quase os toco, no entanto os que estão próximos quase nunca estão tão próximos para serem tocados ou para que eu possa ouvir o real timbre de suas vozes ou ainda, para que possam eles ouvirem, ao vivo e a cores, o que lhes digo, sem a intermediação de uma parafernália de tímpanos mecânicos e janelas coloridas de vido ou LEDs.
O tempo que eu podia ouvir a sua voz com clareza, meu querido Tratador, perdeu-se no passado e eu nem mesmo sei para onde, nem como ele se foi.
Perdeu-se no tempo e no espaço.
Sua voz tomou muitos timbres e nenhum deles é o vosso, aquele que outrora foi meu conhecido e o que falas por elas é uma sucessiva reiteração, de sentenças pinçada aqui e acolá, tendo em vista o momento a serem inseridas e não mais no contesto em que estas foram escritas, com a finalidade para que foram escritas.
A mesma voz que fala, quase nunca, pratica o que diz.
Por outro lado a sua face, a sua face tão bem por mim conhecida e indefinível, está deformada, estilizada e quase sempre esconde subliminaridades inconfessáveis até no canto mais recôndito do inferno de Dante e ela hoje rotula, em letras e(ou) imagem, tudo o que pode ser vendido ou comprado por algo ou alguém, em algum lugar, seja ele onde for.
Eu não consigo entender isso.
Não posso vê-lo mais em meio à estas oito bilhões de faces; não posso ouvi-lo mais em meio às falas, aos berros, aos urros, aos gemidos e aos desvairos desta alucinante e quase infinita homiliada que rodeia-me em roscas e volteios, serpenteando ameaçadora ao redor desta minha nova morada.
Maravilhoso mundo novo este em que vivo.
Tão cheio de espíritos e tão vazio de almas, repleto de coisas e sem nada de realmente útil ao crescimento humano, pleno de belezas a oferecer sem ter nada de belo para dar, cheio de amor e sem amor para doar; caro, muito caro para se viver e barato, barato demais para se morrer; um mundo onde a ignorância é a sabedoria, sabedoria que vampiriza o poder e esta, a sabedoria real e verdadeira, moralizante e construtiva, hoje é apenas o rebotalho, nada mais que a escória repulsiva de uma sociedade decadente.
Se tanto escrevi, foi para dar uma ênfase maior à minha rogação.
Bem sei que a minha atual casinha é pequena demais e não comporta a sua grandeza física e moral, mas antigamente ela era ainda menor e cabias ali confortavelmente, ainda sobrava espaço para todas as brincadeiras, por isso rogo-lhe que faça de novo, outra vez, este milagre.

São Paulo, SP, 09/10 de Novembro de 2013
Mkmouse


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Carta Presente


Este Rato, não cansado d'outros esboços, agrade a Jeová a oportunidade de colocar no ar (neste blog) e na íntegra, a coloquial, singela e despretensiosa carta de uma professora que espera, como tantas outras e outros tantos professores, ser um dia não mais considerados “bichos cá da Terra tão pequenos” pelo governo, pelos governantes e pelo povo brasileiro.


Carta Presente

Hoje é dia 14 de outubro, e eu aqui pensando...

Na véspera do dia dos professores, gostaria de me dar um presente:

A LIBERDADE de ao menos, me expressar, já que não tenho forças para mudar o "quadro negro" atual na Educação do Brasil, principalmente, a paulistana.

Apesar de, aos 25 anos de exercício do Magistério, eu já poder me aposentar1, permaneci até os quase 30 anos em sala de aula.

A velha tática viciosa de conseguir mão de obra abundante e barata, extraindo-a desde o preparo de uma grande "massa-base" populacional ao longo de anos sem trégua, mesmo após o término do Regime Militar no Brasil, ainda perdura.

Nossos dirigentes mal moldados, em mentalidades obtusas para o uso do poder, não desejam que o Gigante, de fato, acorde.

E eu me pergunto: estão com medo de quê?

Gostam mesmo de seu País? de seu povo?

Não seria muito melhor, deixar florescerem os verdadeiros talentos adormecidos e ocultos, distribuídos pela natureza nas várias camadas, ou mesmo estratos sociais?

Aonde estarão: aquele grande cientista, aquele grande cirurgião, aquele grande atleta, aquele grande pensador - realmente merecedor de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, aquele grande artista, aquele político que faria o mundo admirá-lo com respeito, aquele grande herói que aprendeu e usou com maestria a arte de salvar vidas, aquele grande comandante que ensina o caminho para vitórias sem derramar sangue, e tantos outros, na linha dos grandes valores humanos?

Por quê, para que "meia dúzia" de cidadãos tenham algum pequeno destaque social, toda aquela grande, imensa maioria, tem que ser sufocada desde o berço, como filhotes de gatos, jogados num balde de água fria?

Será que dentre esses gatinhos não estará algum valor sendo desprezado?

Há pessoas que se fazem por sua própria força de vontade e há outras, que se equilibram numa tênue linha, pendendo às vezes, para o pior lado - aquele lado que trará prejuízo não só a si e aos seus, como também à sociedade como um todo - e isso seria simples de se evitar.

Uma sociedade que se abraça, se une sem preconceitos e busca elucidar seus valores, venham eles de qual ponto dela vier, é classificada como "evoluída", ou "primeiro mundo".

Governantes que se comprazem, que se "confraternizam" com a ignorância, com o cerceamento da "Liberdade de Cátedra" de seus professores, educadores, não podem estar desejando a evolução para seu País...

Pouco antes de me aposentar, fui submetida ao uso de uma espécie de "cartilha" que ensinava aos professores como dar aulas e aos alunos o que deveriam aprender.

Com a desculpa de "unificar" os conteúdos das escolas estaduais em São Paulo, nos foram entregues esses materiais, impostos, "de cima para baixo" (respeitando-se aqui, a "regra" da estratificação - só para dar consistência a esta linha de pensamento).

Esse material, como pude verificar, ainda está sendo utilizado à exaustão, distribuído no início de cada ano, repetidamente, desde seu "aparecimento" em todas as escolas, em 2007, ensinando São Paulo a "fazer Escola" e deixando subentendido um fato preocupante: que as Faculdades e Universidades não estão sabendo o que ensinam, nem os professores estão sabendo o que aprenderam para repassar adiante e muito menos, pesquisar por conta própria e montar seus conteúdos, suas aulas.

Me senti completamente ofendida e desmotivada ao perder a última coisa que me atraía ainda, apesar de todos os "empecilhos propositadamente criados na educação pública": a minha "Liberdade de Cátedra"; o meu poder de discernimento para criar condições e estratégias, enfim, para usar de didática própria com meus alunos.

Muitos colegas acabaram submetendo-se a mais esse "cabresto" e permanecem numa espécie de "letargia", causada pela exaustão de lutas improfícuas em prol da Educação.

Graças ao Bom Deus, no qual faço questão de sempre acreditar (para no fim, não padecer do "Mal de Nietzsche", e ainda, concordando com Kant quando concluiu que talvez a única causa que poderia unir o maior número de pessoas possível no mundo todo, voltadas a ela, seria a crença num Ser superior), eu consegui me aposentar mantendo a lucidez e relembro a todos que o uso de tal material e a submissão a tal prática não é normal.

É preciso ao professor, mais que nunca, manter a esperança, a lucidez e saber impor a sua inteligência, a sua capacidade de gerar pensamentos e de modificar situações e a própria História.

É preciso, pelo menos, saber que há "a possibilidade de dizer não".

Analisando mesmo que superficialmente a imposição e o efetivo uso de um material que traz benefício em primeiríssimo lugar, às gráficas ou editoras envolvidas, muito mais do que aos estudantes, que, desde o primeiro ano de distribuição do mesmo, o rasgavam, queimavam, amassavam, deixavam propositadamente esquecido sob as carteiras escolares, perdiam, pois mais do que tudo, o "desprezavam", assim como aos livros de leitura e livros preparatórios para um possível uso em estudos para vestibular.

Eu continuo a me fazer perguntas: a quem interessa a imposição desse material?

Não é bem a "quem" mas a "que" serve: ao uso desse dinheiro, em material pouco proveitoso, em detrimento de algum aumento salarial que valorizasse o professor!

Outra serventia: acordos para elaboração, produção e publicações de material em épocas de campanhas políticas - é muito óbvio, para não deixar qualquer educador "razoavelmente" irritado, quando chega o "seu dia" e ele pouco, ou nada, tem a comemorar...

Mas não precisa e não tem que ser assim.

Cabe aos professores e aos políticos com mentes abertas e olhos verdadeiramente no Grande Futuro que o Brasil ainda pode ter, mudar essa situação!

Os valores constroem um poder admirável - assim como, um poder admirável constrói valores respeitáveis - não percamos esta meta!

É importante, que se tenha uma trajetória a perfazer e reconhecimentos numa carreira. Infelizmente, ocorreu algo , no mínimo "inusitado" ao final de minha carreira: após passar por quatro faculdades: uma graduação, uma complementação, uma pós graduação com especialização, um mestrado, uma pesquisa em andamento... ainda assim, mesmo com a tal opção pela "Lei da paridade na aposentadoria ", só consegui fazer uma das provas para obtenção dos tais 25% de aumento salarial incorporado.

Como me aposentei, não posso mais: - "perdi o direito" à paridade a partir dessa nova "artimanha" para "mexer" na estabilidade funcional...

Ou seja: ganhei de "presente de agradecimento" pelos anos todos de dedicação integral à minha carreira, um sonoro "você não valeu nada!".

Entrei em contato com duas entidades sindicais, conversando com integrantes de seus departamentos jurídicos e tive que ouvir deles, que, por falta de mobilização da categoria, nada haviam podido fazer quanto a essa questão, também "imposta de cima para baixo".

E o pior mesmo, é que eles estão cobertos de razão!

Pois é...

Mais um "Dia dos Professores" chegou e eu resolvi não me irritar tanto, porém, sem permanecer inerte.

Pelo menos, no silêncio "pós sala de aula", meus pensamentos ainda fazem barulho suficiente para me lembrarem que ainda vivo e devo comemorar o poder de ainda raciocinar com propriedade, para desejar a toda a categoria, e aos demais servidores, mesmo que não pertençam à Rede Pública Estadual de Ensino, a qual foi o tema desta "Carta presente" ofertada a mim mesma, e por falta de egoísmo, a todos, mesmo que pertençam à Rede Municipal, ou à Rede Particular, mesmo que não sejam professores, mas exerçam funções ligadas de alguma forma à Educação e dela e por ela tirem seus proventos, um excelente Dia dos Professores!

Nunca se esqueçam de meu modesto conselho: não se esqueçam de que são produtores de pensamento e de que possuem uma coisa maravilhosa num país livre e democrático: a preciosa "Liberdade de Cátedra", da qual não podem, não precisam, não devem abrir mão.

Na esperança de que mudanças significativas ainda chegarão, a todos nós, e para melhor...

professora2 Olga Campoy

1- Aposentadoria especial, pelas condições de insalubridade: uso de giz, esgotamento de condições psicológicas, excessivo uso de voz... e acrescente-se hoje em dia: periculosidade no convívio com uma nova "subespécie" de seres cada vez mais, "bestializados" e dependentes da informatização e da telefonia móvel.

2- Professora de Artes.


São Paulo, 15 de Outubro de 2013
Mkmouse