quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Os Dilemas De Um Rato


Cansado de outras guerras, quis um dia deixar o mundo malvado onde tudo é pago em vil metal ou, em ignóbil permuta onde só alguns ganham sempre e sempre.

Notou este pobre mamífero, que tinha dores de cabeça por causa de erros alheios (além dos seus próprios), que era empurrado para um “maravilhoso mundo novo” , o que até chega a ser natural, mas não por uma necessidade evolutiva também natural mas sim, para dar lucro a só Deus sabe quem sem com isso sequer crescer um mínimo imaginável, que recebia constantemente problemas dos mais improváveis que saiam do nada e que no final das contas me levavam a lugar nenhum, e todos estes presentes recebia-os eu, não de gregos, com uma agravante: estava, querendo ou não, pagando para tê-los!

Perdeu este roedor um tempo inimaginável pesando sobre os prós e os contras de uma migração para um novo sistema onde tinha tudo o que o anterior me dava mais uma vantagem...

Eu não tinha que pagar por nada, não tinha que comprar a última geração de nada e nem tinha que aturar fabricantes gulosos por lucros a qualquer preço me dizendo que este produto é coisa do passado, se quiser que isso funcione: compre o novo; segue abaixo o natural monólogo.

- “Pô, meu...”

- Comprei isso “ontem”, já está obsoleto e eu que me "dano" comprando tudo de novo?

Este novo sistema me colocaria em um “mundo novo”, aparentemente desconhecido, onde as asas da imaginação seria o horizonte mais próximo e não utópico, e a um custo que senão nulo, dentro dos parâmetros possíveis para um roedor normal e não fictício, que enfrenta uma realidade às raias do brutal e não quer, além de não achar “legal”, ser parte, subconjunto, de uma massa de manobra absolutamente ignota, mas grande consumidora de tudo e nada mais.

Como eu escrevi a parágrafos atrás, perdi tempo!

A minha ignorância e as regras impostas subliminarmente em meu pequeno e frágil cérebro, me mantinha preso a conceitos no mínimo medievais, posso até citar alguns:

a-) Não posso mudar porque todos os que conheço não usam este sistema, posso ficar isolado.

b-) Não posso mudar porque o profissionalismo usa e eu preciso trabalhar.

c-) Não posso mudar porque... porque... porque...

d-) Etc... Etc... Etc...

Veja aonde esta ignorância estava me levando

a-) Cada “dia” que passava, menos eu podia fazer porque não podia “comprar o novo”.

b-) No afã de vender, vender e vender dos fabricantes, eu estava sendo marginalizado, me excluíam inexoravelmente da vida só por não poder comprar.

d-) E ainda, para completar a piada em que me estava tornando, me convenciam que o “novo, desde que pago,” é o melhor, o mais bonito e por isso eu era melhor, mais bonito e mais rico!

O que eu não estava vendo era o seguinte:

a-) Pelo sistema tradicional, o certo, o melhor, o mais evoluído eu estava caminhando para a falência física, moral e intelectual além de monetária.

b-) Pelo novo sistema eu até posso, eventualmente, não saber para onde vou, o que certamente não é o caso mas sei, e com total certeza, que não terei o mesmo fim que teria se continuasse naquela “mesmice”, paranóia.

Foi então que, acordando para a minha verdade, mudei do Windows para o Linux num piscar d'olhos.


O que eu descobri depois que mudei para o Linux:

a-) Tudo o que eu fazia no Windows, posso fazer no Linux, é uma questão de busca e adaptação tão somente.

b-) Convivo perfeitamente bem com o mundo dos mais avançados, mais bonitos, mais ricos, mais poderosos, mais... mais... mais... e Etc.

c-) Na minha modesta e desprezível opinião tenho tantos problemas, senão menos, quanto tem os mais... mais... da vida hoje em dia com o seu tradicional, monolítico e voraz sistema.

d-) E finalmente não estou pagando nada (quando pago o valor está dentro das minhas expectativas e posses) para continuar fazendo o de sempre e além, finalmente estou evoluindo, crescendo, indo para algum lugar.

mkmouse

Agora e definitivamente, o melhor amigo do Pingüim

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Eu Tentei

É eu tentei...

Deus sabe como eu bem que tentei, não falar sobre bobagens, mas não consigo.

Mkmouse... Tentando... Tentando... Tentando...



É como o Toc-Toc!... para o Roger Rabbit.

mkmouse... Não Dá... Não Dá... Não Dá... Não Dá...


NÃO DÁ NÃO!!!

Não dá, gente, não dá, realmente não dá!
...

Eu não entendo o 'por que' de tanto alvoroço ante um ato tão corriqueiro de um político, um acontecimento que de tão normal e trivial, é absolutamente imponderável.

Estes atos, como o respirar, estão na massa do sangue dos eleitos divinos (antes das eleições), divinos eleitos (depois das eleições).

Gente vocês não tem a menor idéia do que é ser um político!

Pensem bem...

Ter que beijar bebês babões, abraçar 'barrigudinhos' e apertar a mão de pessoas estranhas, já pensaram por onde estas mãos andaram?

Algumas delas suarentas, pois foram arrancadas do trabalho (imagine... do trabalho!), por uma central sindical sob a ameaça de ser demitido se não os seguissem.

Esta é a única maneira de colocar estes ‘puxa-sacos’ na massa do ‘oba-oba’ dos candidatos.

Tenha dó...

Ser político é um sacrifício infernal!

E mal remunerado, diga-se de passagem.

Começa pela filiação, a original, para alguns ele tem um pai desconhecido é por isso que tudo o que consegue durante o mandato é posto no nome dos filhos, visto que, segundo outros, somente Deus e a esposa dele sabem se realmente são seus.

Depois, ele tem que vender seus castelos, seus carros de luxo, aviões e até navios se for preciso, todos conseguidos por árduos, difíceis e tortuosos caminhos políticos ou político-partidários, para poder apenas viver, pois o que recebem mensalmente não dá nem para pagar o restaurante; e o pior, eles têm que se sujeitar a receber uma mísera caixinha dos mais diversos licitatários (chiiii... um neologismo, eu acho), para poder viver com mínimo de honra e ética política.

Por fim, ainda, eles são incompreendidos pela urbe ignota, uma plebe nojenta e não intelectual, ou seja, aquela que compra jornal para ler e costuma não acreditar em noticiário de rádio e tv e, muito menos ainda, em pesquisa pública; além do pior: costumam pensar bem em quem vão votar e normalmente não votam em quem está no topo das pesquisas públicas (isso é um horror, um nojo de pessoas!).

Esta raça maldita vive a desmoralizar o político, dizendo isso e aquilo de seus atos mais probos, idôneos, absolutamente compatíveis com a ética de sua classe, social e política e o pior, trazendo ao público crédulo provas do que diz, causando com isso um verdadeiro inverno na vida do pobre representante píblico, que se não fosse a justiça perfeita e via de regra conjunta de seus pares, protetores e donos, certamente acabariam em uma prisão incerta por tempo indeterminado.

Mas graças a Deus ainda existem eleitores neste (e em outros) país(es).

Os intelectuais, aqueles que compram (ou não) jornais para limpar o ânus ou só para procurar um meio de extorquir algo de alguém, legal ou ilegalmente, acredita piamente no que ouve desde que antes ouça e (ou) veja, atenta e longamente, a notícia de um massacre qualquer não importando onde nem com quem e que sempre, sempre votará no vencedor de qualquer pesquisa pública, aqueles que jamais deixariam passar uma oportunidade de levar alguma vantagem, quase sempre imoral quando não ilícita, sobre qualquer coisa ou sobre quem quer que seja.

A estes cidadãos, os eleitores dos verdadeiros políticos éticos, todas as cestas e migalhas que possam pegar, exigir ou catar, quando cairem do suntuoso banquete político-partidário!

Mas há exceções, pasmem!

Há políticos que se recusam a participar desta ordem regimental e fazem alarde dessa posição aberrante, imprópria, e dou nomes aos bois: um deles é o ...! o ...!! o ...!!!

Ah, tem também a...!? e a ...?!

Chiiiii...

É a P.P.I. chegando, já fiz mais de meio século e a minha memória anda ficando falha!

Mas seja como for, continuo procurando até estou usando a lanterna que achei abandonada em um barril, se algum dia eu lembrar, ou melhor, ver um e não tiver esquecido-me este blog eu, escrevo o seu nome.

Prometo.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Antes e Depois de Babel


Pois é, acho que Babel nunca foi destruída apenas saiu fora do negócio por um tempo indeterminado, ou melhor, tornou-se invisível.

Naquela época analisaram o custo e o benefício de se tentar chegar a Deus e concluíram que daria mais prejuízo que lucro e isso então deu fim ao primeiro projeto Babel.

A natureza sempre foi muito ordeira com tudo, tudo o que nela existe segue uma ordem, e romper a ordem natural das coisas significará sempre a anulação sumária do ato e (ou) a extinção pura e simples do agente.

Cada espécie sempre teve a sua própria maneira de se expressar, de ser, de viver e isso valia e vale até hoje para a espécie humana, que por fazer parte natural de todas as coisas, não pode escapar às regras da natureza (que são as mesmas desde a criação) por mais que se esforce para isso.

A confusão também faz parte do sistema e tem a sua finalidade.

Quem na maioria das vezes se beneficia deste evento são os predadores e algumas raras presas, as quais usam esta faceta da mãe natureza para deixar confusos os fazedores de confusão.

Segundo conta a história a multiplicidade de idiomas e formas entre as espécies começou quando Babel caiu.

Naquela época, a confusão era sinal de morte próxima ou uma exceção à regra geral logo, sempre um perigo em potencial.

Naquele tempo ser ignorante era prejuízo certo.

Já depois de Babel as coisas não eram mais assim.

A ignorância que sempre foi (antes de Babel) uma fonte de incertezas e prejuízos, hoje é a maior fonte de lucros e poder do planeta.

A confusão que naquele tempo trazia maldições para todos os homens, hoje trás milhões em bônus para alguns homens.

O que era promiscuidade antes virou hoje modismo, evolução, uma simples palavra de ordem, ou ainda apenas a ordem do dia.

Em fim Babel é um marco, um ponto de referência.

Antes de Babel os homens sabiam quem eram, de onde vinham e para onde iam, o que os condenou inapelavelmente foi a arrogância.

Depois de Babel os homens deixaram de querer saber quem são, de onde vieram não tem a menor importância e o que importa mesmo é para onde se vai, desde que este alvo seja o lucro ou a vantagem.

É o fim a justificar os meios!

Antes de Babel os povos eram senhores de si, conscientes de sua natureza e explorando o mundo ao seu redor, se enchiam de conhecimentos (pois o conhecimento era para todos) e então, capitaneados pelo Rei, construíram cidades e outras obras cujos restos, mesmo que insignificantes, é hoje ainda a causa estupefação e dúvidas, algumas sem nenhum mérito intrínseco.

Mas como parece ter acontecido, a sabedoria não fazia parte do curriculum vitae dos homens da época e a arrogância neles fez a sua morada.

Depois de Babel os povos não mais são senhores de si, a consciência de sua natureza não é mais um item no currículo escolar, e por fim, não mais vemos o Rei a lidera-nos em nossa jornada.

Este, sempre oculto no anonimato, delegou poderes fictícios por um alto custo físico e moral aos especialistas, doutores, políticos, funcionários públicos, aos gersons da vida e outros celerados amorfos que pululam os campos da vida sempre em busca de alguma vantagem pessoal, do lucro fácil, defendendo um interesse dominante qualquer ou ainda algum feudo reinante, seja ele qual for, esteja ele onde estiver, queira ele o que quiser.

Estes delegados do Rei, com a mesma arrogância de outrora (se não maior ainda) fomentam a vadiagem, a voz de comando e o modismo levando o ser à miséria física.

São os fomentadores da ignorância, do sectarismo e da discriminação levando o ser à miséria moral.

São ainda aqueles que, descarada e legalmente, incentivam a dependência física e psíquica das benesses que outorgam (do erário) a mando do Rei.

São ainda eles os mesmos que por sua vez distribuem afagos, tapinhas nas costas e na cabeça, abraços e beijos; premiam com medalhas ou verbas (públicas é claro) os indivíduos da plebe (da qual julgam não fazer parte) pelo comportamento social exemplar e pela aceitação, cooperação, incentivo e difusão da condição de ignorância quase total para todos, tudo dentro dos parâmetros de uma lei que urdida foi só para este fim.

Antes de Babel a arrogância de todos levou a extinção a alguns

Depois de Babel a arrogância de alguns levará a extinção a quase todos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O Maior Problema Do Mundo


Então o Rato, sentado no topo da sua casa, olhou em sua volta.

Havia uma criatura a sua direita desesperada por ter a morte levado um seu ente amado, à sua frente uma outra criatura a descabelar-se por ter perdido tudo o que havia conseguido e acumulado em toda a sua vida, à sua esquerda uma terceira sabendo-se à beira da Morte apavorava-se ante o inevitável e à sua retaguarda alguém a morrer lentamente de fome, na imensa turbulência da megalópode, na maior solidão e completamente abandonado.

E quantas coisas mais, viu este Rato, nos ângulos intermediários a esta Rosa dos Ventos.

Em um ponto qualquer alguém nasce, em outro alguém morre e enquanto isso acontece simultaneamente, alhures e não menos simultaneamente, um outro alguém trabalha preocupado com o seu futuro enquanto, noutro canto, ha alguém sem nada fazer e não se importando com o que possa ser o seu futuro.

Me pareceu por instantes que o maior problema do mundo estava com aquele que exultava de felicidade ao ver o seu nascituro a esta urbe chegar pois este fato certamente lhe traria preocupações e responsabilidades extras durante todo o resto de sua vida mas, compreendi que não era assim, pois é quase certo que muitas alegrias este evento poderia de dar, e não só aos seus progenitores.

Estaria então o maior problema do mundo com aquele que está a encarar a face da morte?

Não...

Acredito que não.

São tantas as coisas que podem estar acontecendo neste momento e já aconteceram, que pode a morte ser até um refrigério para a sua vida e visto que neste momento ele está prestes a ver o desconhecido, o inimaginável, reconheço aqui ser o seu problema maior apenas a incerteza, a incerteza que traz consigo este inevitável destino.

Então este problema, o maior problema do mundo, estaria com aquele que está só no meio de todos, aquele que tem a fome como alimento, o lugar nenhum como destino, a abóboda celeste como um teto, a Terra como um berço e apenas ninguém como parente?

Por certo esta este pior que Polifermo o qual tinha algo alem de Ninguém, não como parente, mas como algoz: no entanto, a solidão que o enclausura torna o seu problema apenas seu e a sua dor apenas sua, sua triste figura deixa somente constrangido o mundo que o rodeia o que nem sequer chega a ser um problema, pois basta apenas ignorar a criatura e o constrangimento some, isso quando não some a própria criatura, mais constrangida ainda que a sociedade que o rodeia.

Realmente não é este o maior problema do mundo.

Então o Rato pensou...

- Se o Maior problema do mundo não está no nascimento, não está na morte e em está no tempo que se passa entre um e outro evento, onde estaria ele?

Então, após refletir mais um pouco, conseguiu uma resposta!

- O maior problema do mundo é o seu.



MkMouse


Agora sem problemas (Hatuna Matata)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Treze Tics, Um Clic e Doze Tacs


(1)




Coloco o fumo de corda, picado a canivete, na palha fina.

Alguém se aproxima de mim por trás

Ouço um cli...

Atrás de mim à esquerda o murmurar de vozes em sons confusos e distantes na barraca da cozinha, ainda atrás de mim e depois de alguém, silenciosa a barraca dormitório bem como a outra, também dormitório, que tem a cozinha como vizinha.


Estou a ajeitar, com o canivete, o fumo à palha.


Um agradável cheiro de comida espalha-se pelo ar o qual mistura-se incontinente ao olor de terra inda molhada por chuva tranqüila cujas gotas como orvalho, agarra-se teimosamente à grama, que rasteira cerca-me por completo.


Dois fachos de luz, acompanhados por característico ronco de motor unido a ruídos peculiares como o ranger de molas que aliados ao esmagar dos pneus a rolar, atinge-me a íris e os tímpanos de traves á direita.


Era o terceiro veículo, o último, que da Casa Grande chegava sacolejando pela trilha na mata e que sem cerimônia nenhuma iria adentrar à clareira e alojar-se ao lado de outros dois que alinhados á luz da fogueira, pareciam adormecidos.


… ic...

Um relâmpago iluminou a clareira e o que nela havia: um, duzentos e cinqüenta avos de segundo acabara de passar.

A pessoa que apertou o botão do clic começa a se afastar, tão muda e silenciosa como chegou.

Começo a enrolar a palha ao fumo.

O motor silencia-se, adormece, abrem-se as portas, novas vozes junta-se ao coro da cozinha que após breve silenciar se fizera intenso novamente.

O enrolar da palha no fumo agora ia ao meio, após um característico vai e vem inerente ao contesto.


O cheiro de novos e gasosos odores perdem-se no ar freso e úmido.


Ouço a voz advinda do silencio quase secular dos hartos troncos, robustos, gigantes, donde as imbiras do cimo pendentes(2) une grandeza à pequenez.


Duas portas se fecham.


Chega ao fim o rolo da palha, é quase pronto o cigarro.


Sinto-me observado.


Olho para cima e lá esta Argos olhando a tudo e não só a esta criatura.


O ar, líqüido globular da abóboda celeste, plena em seu contraste visto ter Apolo partido, a observar o Cosmo faz com que os olhos de Argos pisquem zombeteiros sobre minha alma tranqüila em um tranqüilo anoitecer.


Abaixo a cabeça e com saliva a palha lacro.


Torna-se mais forte as vozes vindas da escuridão que ora abraça, com sutil força escondendo, as fraquezas, as grandiosidades e as sombras do reino vegetal e animal unindo-se, o canto e vozes estas, às vozes que como um coral me chegam ao pavilhão auricular da barraca, agora tão concorrida.


Crepita, caminhando para o auge, a fogueira á minha frente, a qual contemplo sentado em uma cadeira de praia.


Em no máximo uma hora a janta estaria pronta.


Dobro uma das pontas do cigarro e levo a outra à boca.


Tic-Tac, Tic-Tac...


Em meio a toda esta riqueza de sons, estava eu a ouvir um ruidoso, o nosso espalhafatoso, despertador em seu inexorável caminhar a conversar com o tempo que passa e lhe faz companhia amenizando a sua solidão.


Engraçado como o rugir silencioso da mata aguça nossos sentidos!


Tic-Tac, Tic-Tac...


Esvai-se o tempo no próprio tempo e a seu tempo, levando consigo o meu tempo.


Tic-Tac, Tic-Tac...


Quando do Tic chega o seu “T” este já é passado e o “i” não terá tempo para ser presente pois o “c” que outrora era o futuro esta a chegar, precedendo o silêncio que o separa do “T” do “Tac” que é o futuro próximo e este, o “T”, por sua vez arrasta consigo e na seqüência o “a” e o “c” todos ainda, neste fugaz instante, um futuro mui distante.


Olho para cima de novo, e vejo o rosto de Argos, a face de um passado [retrato de um tempo tão distante (senão mais distante ainda) como o dia do nascimento da Terra] ainda vivo, real na minha realidade, real no meu ali, real no meu hoje, real neste agora onde quer que seja, ou esteja, nesta Urbe Planetária!


Não consigo ver a realidade do agora, só o ontem distanciar-se de mim em vertiginosa corrida.


Não posso ver o amanhã, senão entre o desfilar de um Tic e um Tac...


Eis então que prevejo o futuro próximo:


- “Vou ascender o cigarro!”


Curvo-me para a fogueira.


Tomo de uma pequena acha e a aproximo da ponta dobrada do cigarro, a queimo e num longo aspirar o faço ascender em definitivo.


Desta vez acertei!!!


Nada interveio no processo desencadeado por mim.


Devolvo a brasa a sua origem.


Tic-Tac, Tic-Tac...


Estou dez Tic-Tacs mais próximos do momento de partir novamente para São Paulo e gozar do merecido recesso de fim de ano.


Saboreio com um prazer indescritível este momento único.


Há quase quatro anos que eram assim as últimas horas em um acampamento.


O cenário natural é sempre diferente a cada mudança, a cada volta ao campo, mas muito raramente mudava algum ator e nunca o palco onde se representava a peça que era sempre a mesma mas repleta e plena de improvisos em seu cotidiano.


Prevejo o futuro:

- “O ano que vem novos horizontes serão o meu palco nesta gloriosa natureza!”


Tic-Tac...

E foram!

Tic-Tac...

Quando cheguei em São Paulo, fui demitido!

Tic...

Hoje mais de três décadas depois posso escrever que graças a isso e a muitos outros “issos”, vi novos mundos, vivi muitas vidas, bebi de muitas águas, representei muitas peças e em muitos lugares, ampliei meus limites, estendi meu horizonte até onde pode chegar a minha imaginação humana e consegui, consegui viver as alegrias e agruras do presente, este tempo infinitamente pequeno, que separa o ontem do amanhã.

E a foto daquele começo de noite?...

Só Deus sabe por onde anda se é que existe.

Mas o homem é uma máquina do tempo e quanto mais tempo vive mais poderosa máquina temporal o é.

O homem, quando boa máquina do tempo pode ver, cheirar, ouvir e sentir vividamente o passado, pode dormir sobre o travesseiro das boas visões e nas horas de vigília pode contar com a sentinela que é, pois que como todos, não só viveu muitos maus momentos mas, e também, viu quem estes momentos houve por seu turno viver. Assim, e por isso mesmo, tem como saber a maneira, o modo de como podemos deles escapar e ainda na maioria das vezes quase plenamente ilesos.

A partir de agora e para os anos que possam vir, desejo a todos que consigam dormir tranqüilos e felizes sobre o travesseiro das boas lembranças, das futuras delícias e almejadas felicidades, que consigam sempre se livrar, contornar e vencer os empecilhos, as agruras e mazelas que possam ser encontradas pelo caminho e que a tristeza se lhes apresente sempre como um simples fantasma que, desesperado e em fuga desabalada, vai desfazendo-se á luz de um novo dia.

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1- Relogios Moles (The Persistence of Memory) - Salvador Dali (1931) - (Antes que receba alguma comunicação sobre a obra por mim citada e mostrada, quero informar que devido a quantidade de quadros que vi sobre o tema, não posso (não entendo de artes plásticas) garanti-la como uma obra de Salvador Dali.)

2 - O Canto do Piaga, Gonçalves Dias, Antologia (1966), pg 47 – canto III vs 45 a 50 – adaptados no texto pelo autor

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Um Verdadeiro Dia de Natal


...Tocam os sinos, tocam os sinos...

Hummm...

É natal.

Legal né?!

Mais um aniversário no calendário deste ano e desta feita, um de caráter coletivo, para a comemoração por todos indistintamente.

É a data mais separatista, hipócrita e egoísta do ano todo.

Apesar de ser um aniversário para a coletividade comemorar, não há um ajuntamento humano para o fazer, mas quando podem os homens o fazem só no seio dos familiares e com os mais “chegados” apenas, onde nem sempre estão os mais queridos.

Por um momento, apenas e tão somente um momento de uma vida, um instante no tempo total de uma existência a qual quis o destino ser difícil e sofrida, alguém mostra um sorriso a alguém, alguém estende uma mão amiga e solidária a alguém, alguém dá o calor de um abraço afetuoso a alguém, alguém da uma colher de sopa a alguém faminto.

Uma simples e única colher de sopa em um simples e único dia do ano!

Alguns cuja felicidade extrapola o vulgar neste dia ganha não só uma colher de sopa, mas um cobertor também.

É...

Um cobertor...

E com isso não só as estrelas hão de cobrir e aquecer o corpo sortudo, nem sempre com alguma saúde e quase sempre faminto em todas as outras muitas noites, algumas muito frias, de um único ano.

É...

Apenas um dia em trezentos e sessenta e cinco, quando não trezentos e sessenta e seis, e por apenas alguns momentos tão somente, alguém com necessidades prementes, vitais mesmo, sente o que poderia ser a felicidade!

Alguns, mais afortunados ainda sentem uma felicidade maior, a de poder dar a um ente amado provavelmente mais carente ainda, uma parte senão tudo, o que acabou de receber e não sem antes agradecer a bondosa mão doadora.

Mas há outros entre estes alguns, que sentirá a felicidade maior, o prazer infindável e indefinível de passar fome mais uma vez para que seu ente querido e mais esquecido ainda pela sorte possa comer e viver, viver quem sabe, um dia a mais ao seu lado.

Se isso não for tortura e das mais ferozes, definitivamente eu não sei o que é tortura.

Mas um transeunte a vagar sem destino certo, que abismado além de sofrido, maltratado e ferido, vê com olhos mais que esbugalhados, no obstante tristes, a opulenta riqueza, a maravilhosa beleza, a imensa fartura e o mais terno e fantastico amor dos quais nem mesmo simples migalhas, restos do egoístico banquete onde a fria hipocrisia e o feroz lucro fácil deleitam-se até o orgasmo pode sequer, pensar ou mesmo almejar tocar, sem ter que disputar as tais migalhas com os cães e ser por estes ferido senão morto em uma luta sem glória.

Apenas as sobras dos cães, quando existem, poderão quem sabe ser suas e isto se puder apanha-las durante a disputa entre seus pares.

E então, para culminar o horripilante desfile, delírio de luzes, cores, sons, formas e gestos, surge uma criança que como um ferro em chamas a arder, quente como o centro de uma estrela lhe queima a alma e sublima-lhe o espírito quando com peso de toda a sua inocência, pede.

Ah, e o que pede...

E o que pede é sabido por todos menos por ela, que não há como lhe ser dado.

Mas, eis que agora o ferimento é na alma e é profundo, dói, dói e sangra, e sangra fartamente, e o homem chora, aos prantos esfacela-se o seu coração já tão combalido, ferido e muito por outras lides, arranca-se-lhe então pela raiz a vida, a esperança que restava desfaz-se em desabalada fuga na névoa do desespero, quebra-se-lhe a delicada magia do sonho, mata-se inocência, escancara-se-lhe então as portas da vida e ele, por fim, contempla a face da própria sorte.

Mas é natal...

O Natal por fim chegou!

E aquele que nada tem, tem agora a sua miséria desnudada em toda a extensão e riqueza, tem a sua dor exposta à indiscrição pública com toda a nudez que lhe é pertinente é então o foco, mais uma vez, de uma audiência avassaladoramente grande e ávida por detalhes e está por fim, anonimamente, a fazer heróis às centenas e a enriquecer sobremaneira a já rica e exuberante miséria humana, para o proveito de alguns principescamente afortunados pelo poder, pelo dinheiro e plenamente bafejados pela sorte.

Mas um rato sabe, sabe como deveria ser um verdadeiro dia de Natal.

E ele deveria ser exatamente como o é agora, segregacionista e egoísta mesmo!

Sabe, que este é o único dia do ano em que deveríamos viver apenas e tão somente para nos e nossos entes queridos, nada mais.

É...

É isso mesmo!

O Natal deveria ser assim, exatamente como ele é agora.

O problema, o erro, não está no dia de Natal e sim nos outros dias do ano não importa qual desde que não seja, o dia de Natal!

O Natal deveria ser como é porque nos outros dias do ano nós deveríamos cuidar uns dos outros todos os dias e todas as noites, sem parar e sem olhar a quem, ajudarmo-nos sempre sem nem mesmo e sequer lembrarmos disso após consumado o ato, após a existência do fato.

O combate às misérias humanas seria durante todos os dias e noites de um ano, a obrigação de todos e não a abnegação de alguns ou o lucro de outros.

Se todos os dias e todas as noites os homens rondassem os homens a procura do sofrimento, da dor e do desespero, se os interesses e o bem estar de muitos se sobrepusesse aos interesses e o bem estar de uns poucos sem no entanto a estes ferir mas, e apenas, integra-los ao conjunto e isso todos os dias e noites de um ano, este dia, o dia de Natal seria exatamente o que é hoje, o único dia do ano em que nos voltamos para nós mesmos e nos presenteamos.

O único dia do ano em que esbanjaríamos a nossa felicidade com nós mesmos e com os nossos entes queridos apenas e unicamente.

Este é o verdadeiro espírito do Natal, a verdadeira idéia de Natal e será, quando este ano acontecer, este dia um verdadeiro dia de natal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Cantiga para Ninar e Recordar


Cantiga para Ninar e Recordar


Se esta hora, se esta hora fosse minha.
Eu mandava, eu mandava que parasse,
Que parasse e ficasse bem quietinha
Para eu ver, para eu ver você que nasce

E nos passos, e nos passos seus tão curtos
Que se arrastam, que se arrastam pelo chão.
Andam lentos, mais velozes que o susto
Que nos pregam e nos pegam bonachão.

Ah!... Se o tempo, se do tempo meu presente
Eu pegasse, um instante tão somente.
Eu faria deste instante a semente
Desta hora, eternamente florescente.

Mas o tempo, este tempo inclemente
Não vacila, nem oscila tão somente.
Bate e volta, bate e volta como sempre
Mas nunca, bate e volta como a gente.

Estes dias, estes dias vão ficar
No passado, num passado mui distante.
E eu queria, eu queria então marcar
Este tempo, este momento tão infante

Mas é a hora, é a hora de calar
Não sem antes, não sem antes recordar
Um momento, um momento peculiar
Depois então, só então silenciar.

É na fala, é na fala que se grava
E recorda, e recorda tal figura
Que pequena, tão pequena então estava
Que o dedo de uma mão só segurava.

E neste dia, neste dia tão sereno
Um passeio, um passeio foi querendo
E mão no dedo, e mão no dedo segurando,
Fomos os dois, só nos dois então andando.

***
A foto mostra uma escultura que esta no Colorado em Loveland, no Benson Sculpture Garden